CHAVE
Manhã,
bem cedinho. Sábado. Favela, como não? Calmamente, refletindo sobre várias
coisas enquanto ia caminhando dirigindo-se ao trabalho foi isso tudo muito
rápido. De repente, ao meu lado, duas ratazanas fazendo biquinho na janela do
carro, que em marcha lenta ia acompanhando-me bem lentamente, na velocidade dos
meus passos. A impressão passada, é que queria colocar medo com essa atitude
suspeita. A do volante, apenas com uma mão dirigia e com a outra me apontava
uma submetralhadora, seu rosto ia quase que encostado no vidro, piscava
descontroladamente, de onde estava, nitidamente, podia ver a brancura da
cocaína escorrendo de sua focinheira. Noiados fardados. E nestes poucos
instantes em que nos fitamos olho no olho ele puxava para dentro do nariz assim
como fazemos quando estamos resfriados. O seu comparsa no passageiro, e por
isso, bem ao meu lado, me olhava com os olhos vermelhos rodeados por uma
olheira intensa, seus ombros e seu braço que carregava uma pistola destravada e
engatilhada iam quase encostando no asfalto. Estava com a metade do corpo para
fora. Eu estava no canto da rua, quando surpreendido por estes dois, subi na
calçada para não ser atropelado por eles. Esse dependurado na janela, olhava
para dentro do meu olho, como que querendo ver o que ele estava refletindo, sem
medo, sem tremer, o fitei também, na minha ideologia ele só é mais homem que eu
se tiver três bolas no saco. Fazendo biquinho como que querendo dizer que é
maldoso, balançou a cabeça afirmativamente, e disse o seguinte: - É neguinho,
te pego na melhor hora, preto filho da puta. Não respondi nada e nem parei, continuei no
meu mesmo ritmo, do outro lado da rua, buzinando, surgiu neste momento o
vendedor de pães que trabalhando com sua bicicleta indo de porta em porta é
conhecidíssimo na vizinhança. Viraram a rua, saíram do meu raio de visão, mas
foram no mesmo rumo que eu iria passar.
Assim que chego na esquina, no mesmo passo em que estava, olho e já vejo
a barca parada com as portas abertas no meio da rua. No mesmo instante, vários disparos ecoaram
naquela manhã. Estavam atrás de um mano que saiu correndo entre as vielas.
Porra, ali nem biqueira é. Várias casas
sem reboco, vários barracos de madeira. Na boa, olhei para a barca, lembrei da
frase do escroto: - ... preto filho da puta. Ah, e disse para mim mesmo: -É
muita tiração. Um garotinho passa de bicicleta por com um saco de pão em uma
das mãos, dá a volta na viatura olha a cena, e olha a mesma coisa, desce de seu
veículo pega a chave do contato, sobre a bike e vai embora e passando por mim,
olha na minha cara dando risada e desce a rua... Quebruxo. Respeito é a chave.
Olho no relógio, dois para sete da manhã. O que será que aconteceu?
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